quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

CUIDADOS NA HORA DE TATUAR

Cuidados na hora de Tatuar
Ter um certificado de um curso de tatuagem indica que a pessoa está apta a tatuar. Mas é exatamente por envolver a saúde e o bem estar alheio que a grande maioria dos profissionais de modificação corporal procura outros cursos de capacitação, tornando-se técnicos em instrumentação cirúrgica ou em esterilização, em enfermagem, entre outros. A agenda de um curso de tatuagem deve, claro, incluir questões de saúde, mas, por uma limitação de tempo, dificilmente tratará de todo o assunto de forma satisfatória.
Se até médicos e dentistas sentem a necessidade de fazer cursos a parte e de procurar informações mais precisas o tempo todo, com um tatuador não é diferente! Estudar é crucial. E estar ciente da regulamentação que envolve o próprio trabalho (ou a própria área de atuação) também o é.
Não é preciso dizer que um tatuador carrega, em sua profissão, uma enorme responsabilidade no que diz respeito à saúde do cliente. O problema é que, mesmo sabendo disso, é relativamente comum que nem tudo seja levado em conta, principalmente porque a maioria acha que é exagero.
Um exemplo: nos programas de TV sobre tatuagem os tatuadores não usam máscara na hora de tatuar para não atrapalhar a fala. Estão ali, com o rosto bem próximo de uma ferida aberta e falando o tempo todo. Mas você deixaria um dentista fazer uma obturação em você sem usar máscara?
Cuidados na hora de Tatuar
Snoopy Piercer
Outro exemplo, desta vez oposto, pode ser visto na página do Ronaldo Sampaio, o Snoopy. Sem rodeios, o melhor body piercer brasileiro!
A ANVISA obriga que todos os profissionais que efetuem algum tipo de procedimento cirúrgico (sim, tatuagem e piercing são procedimentos cirúrgicos, ainda que de “menor porte”) estejam devidamente protegidos com touca, jaleco, máscara e luvas, todos descartáveis! Não apenas isso, mas também regulamenta toda uma série de cuidados e procedimentos anteriores e posteriores ao contato com o cliente/paciente, e também em relação ao ambiente.
Cada objeto utilizado no procedimento tem ainda especificações a respeito de como deve ser feita sua esterilização ou desinfecção e até de como devem ser armazenados.
Além de exigir, há algum tempo, que tintas para tatuagem devam ter um selo de avaliação da própria ANVISA (atualmente, muitos kits de tatuagem ainda não contêm tintas regulamentadas), o órgão passou também a proibir que os estúdios usem agulhas soldadas por eles. A agulha deve ser comprada já soldada à haste e tudo deve ser descartado logo após o uso (antes, os estúdios soldavam as agulhas a hastes reaproveitadas, o que geraria menos gastos; ainda hoje algum estúdios insistem em fazê-lo).
Cuidados na hora de tatuar
Um tatuador ou body piercer não está autorizado a recomendar medicamentos de qualquer espécie, muito menos a aplicar anestésicos, sejam eles injetáveis ou tópicos! Antes de passar pelo procedimento, o cliente precisa assinar um termo de compromisso, no qual garante que não sofre de nenhum problema médico. O ideal seria que esse termo viesse juntamente com um questionário médico que aborde todas as condições que apresentem um risco em potencial, além daqueles já envolvidos ao se fazer uma tatuagem.
Uma listagem de possíveis complicações que envolvem “pequenos problemas de saúde” e tatuagem pode dar uma dimensão do risco de não estar atento ao histórico médico daquele que será tatuado – e esta listagem é extremamente pequena, tem o caráter de exemplificar mesmo, e não chega nem perto de estar minimamente completa; na verdade, pessoalmente falando, estou listando aqui as coisas com as quais estou familiarizada pelo meu próprio histórico e por causa da minha mãe, que, como dentista há mais de 30 anos, sempre martelou na minha cabeça sobre alguns dos riscos:
- Dependendo da quantidade de anestésico tópico aplicado (no caso, a pomada de lidocaína, comumente usada para perfuração na língua e mucosas) e do estado em que se encontra o local (muitas aftas, ou problemas circulatórios ainda não diagnosticados), há um risco (relativamente pequeno, mas que existe) de chegar à necrose.
- A bebida alcoólica “raleia” mesmo o sangue! Por um lado, o álcool pode até ajudar em casos de pressão alta, por afinar o sangue e, portanto, melhorar a circulação. Por outro, o excesso dela faz com que o sangramento de uma ferida demore mais e seja mais difícil de estancar. Ou seja, além de a pessoa ficar chata e não ter controle sobre os próprios movimentos enquanto é tatuada, ela pode ainda sangrar mais que o necessário. O processo fica mais trabalhoso, demorado e arriscado – quanto maior a quantidade de sangue, maior o risco de ter algum contato com ele, principalmente se o tatuador não usa mangas nem jalecos descartáveis.
Cuidados na hora de tatuar - Vaselina
- Para estancar o sangue, o tatuador costuma usar vaselina. Ela também faz com que a agulha “escorregue” com mais facilidade na pele. No entanto, a vaselina é feita de petróleo, entre outros compostos químicos, e a possibilidade de se ter ou desenvolver alergia ao produto é bastante alta. Além de reações alérgicas como a coceira, não raro, a vaselina pode causar eczemas ou irritações graves na pele. E para saber se o indivíduo tem alergia ao produto, só fazendo o teste médico mesmo! (Isso significa que muita gente tem e não sabe.) A solução, no caso do tatuador, pode ser passar um pouco de vaselina na pele do cliente no dia em que ele for marcar a tatuagem, mas só serve para indicar alergias mais fortes, de contato.
- Pessoas que sofrem de alergias variadas podem sofrer queda de pressão e desmaios, bem como situações de exposição à dor e de perda de sangue. Se o sujeito vai fazer a tatuagem em jejum ou depois de muito tempo sem comer, o risco aumenta enormemente!
- Remédios ansiolíticos e calmantes também promovem a queda de pressão. Se a pessoa toma medicamentos para depressão, oscilação de humor ou voltados para tratamentos neurológicos, está sujeita a efeitos colaterais como a própria variação da pressão até convulsões (causadas por choques como a dor aguda ou por simples queda da pressão, também!). Um indivíduo epiléptico pode ter um ataque justamente enquanto faz a tatuagem! Nem é preciso dizer que é essencial ele avisar de sua condição ao tatuador! (E, acredite, muita gente não avisa).
Cuidados na hora de tatuar
- Quando o tatuador não usa máscara e fala enquanto tatua, a saliva dele “cai” na ferida aberta pela tatuagem.  E nem é preciso dizer que as doenças transmitidas pela saliva constituem uma lista grande. Se o tatuador permite que outras pessoas (mesmo um acompanhante) fiquem no mesmo ambiente em que está sendo feita a tatuagem, aumenta ainda o risco de infecção por vírus transmitidos pelo ar. A gripe é uma delas (a mais comum), mas não é a única!
- Muitos tatuadores e piercers ainda têm dúvida na hora de diferenciar a quelóide da dermatite. O problema é que em alguns estúdios, mesmo sem identificar qual é o real problema, oferecem o procedimento de remoção do tecido “extra”. Dependendo de qual for a reação apresentada, o tecido pode voltar a crescer ainda mais. A quelóide é uma espécie de cicatrização exagerada que ocorre mais frequentemente na pele negra – então, no Brasil, quase toda a população pode desenvolvê-la por uma questão de genética! O resultado pode ser desde uma tatuagem um pouco mais “alta” até a deformação completa do local tatuado!
Clique aqui e aqui para ver as imagens ampliadas (não colocamos, por respeitar aos usuários que não gostam de ver este tipo de foto)
- A tinta vermelha é a que mais pode provocar reações, devido à toxicidade de seus componentes, principalmente o mercúrio.
- Algumas hennas (pois é, até as tatuagens de henna tem riscos!) são escurecidas com chumbo, substância altamente nociva!
Clique aqui para ver a imagem ampliada (não colocamos, por respeitar aos usuários que não gostam de ver este tipo de foto)
- Até a pomada mais recomendada pelos tatuadores, a Bepantol, oferece riscos! A composição da pomada, em reação com a tinta, pode também levar a irritações e inchaço!
Para ver o post sobre as infecções causadas por tintas diluídas em água de torneira, clique aqui.
Felizmente, o número de tatuadores que tenham pelo menos o curso de primeiros socorros vem aumentando. No entanto, em algumas situações, nem mesmo enfermeiros têm treinamento suficiente para lidar com a pessoa sem supervisão médica. É claro que, quanto maior e melhor a formação do tatuador, mais seguro o cliente deve se sentir. Mas é preciso que ele tenha sempre em mente que um tatuador não é um médico e, a não ser que tenha um diploma em Medicina, jamais estará tão preparado quanto o médico para lidar com sua saúde. Portanto, se você se encontra um pouco debilitado, que seja apenas por conta de um resfriado, e queira se tatuar, não é o tatuador que você deve consultar primeiro, mas o médico.
A velha dica de conhecer a fundo o estúdio e o profissional com quem se vai tatuar também se mostra mais forte que nunca após esse imenso post!
Ora, se todos cansamos de ouvir que “enfermeiro não é médico”, e, logo, não substitui o papel deste, por que um tatuador substituiria?